Translate

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

O santuário de Sepé


Nesta data, após 261 anos da morte do são-luizense Sepé Tiaraju, a experiência Jesuítica/Guarany ocorrida neste lado do planeta continua repercutindo e nos provocando...

Para falar sobre este tema que me encanta, dividi ele em três partes:
1ª) A religiosidade do povo Guarany.
2ª) O Santuário de Sepé.
3ª) A verdadeira face do Tratado de Madrid.
  

São temas históricos resultados de profundas "reflexões"
Na verdade tem pouco de história e muito de reflexões...
Caso tenha coragem, siga lendo! 


A religiosidade do povo Guarany:
A palavra Guarany significa:guerreiro, porém sempre foram um povo pacífico e místico, que já tinham sua religiosidade muito antes da vinda dos jesuítas. 
A ancestral busca da Terra Sem Males prometida por Nhandevuruçu(Deus supremo dos guaranys), comprova isso. 
De acordo com as lendas guaranis, o primeiro contato com a cruz foi através da figura de Sumé*, a quem padre Anchieta dizia ser São Tomé, que andou pelos Caminhos de Peabiru**!

Mesmo com sua característica nômade, de sempre estar no caminho, era um dos poucos povos nativos que plantavam seus roçados para colher e estocar alimentos, pensando no mais tarde. 
Um grupo ia na frente plantando e cuidando os roçados para o restante realizar meses depois a mudança.
O normal das outras tribos era comer o que viam no momento, sem preocupação nenhuma com o amanhã. (Vide os temíveis Charruas...)
Essa organização social, agrícola e principalmente a religiosidade, surpreenderam positivamente os Jesuítas, que por sua vez propuseram, a sua maneira, uma aliança duradoura. Convenceram os guaranis de que a Terra Sem Males seria construida em conjunto com eles.
Aos poucos introduziram os rituais religiosos da doutrina cristã. 

As artes e os rituais religiosos
Com essas atividades, os jesuítas catequizaram os guaranis e elas foram aceitas com muito encantamento pela maioria.

O Guarany é um povo pacífico, porém implacável na vingança! Sempre existia um fundo religioso até nas vinganças. 
Cito quatro casos:
a) Na batalha de "Y"(Guaranys eliminaram furiosamente aldeia Charrua que havia destruído redução de Yapeju)

b) Os guaranys consideravam os portugueses como demônios vivos, esse ódio alimentou os ânimos durante a vitória na batalha de M'Bororé. E continuou até o massacre de Caiboaté.

c) Outro fato(relatado pelo diário de guerra do padre Tadeu Xavier Henis) que demonstra a religiosidade do povo guarany é o de sua lentidão em deslocamento para os combates e a desunião e desorganização nos mesmos, no entanto havia uma total prontidão para os rituais litúrgicos antes dos próprios combates.

d) Após a traição de Caiboaté(guaranis receberam promessa de trégua de três dias,mas foram cercados imediatamente, sem aviso), os poucos que escaparam com vida, retornaram às reduções, ao chegarem, dirigiam-se primeiramente aos altares para realizar suas orações e agradecimentos, ignorando os poucos padres que ficaram ao lado da causa dos Sete Povos*, mais que isso começaram a tratar também a estes padres, como traidores ou omissos ...




O Santuário de Sepé 


Sepé Tiaraju era "célebre"
Assim cita no seu diário de guerra o padre jesuíta alemão da redução de São Lourenço, Tadeu Xavier Henis.
Li certa feita um historiador minimizando essa expressão, dizendo que o padre se referia a Sepé como célebre apenas diante a aldeia ou aos índios... 
Mas os jesuítas sabiam o significado de cada palavra, assim como nós ao visitarmos uma localidade e dissermos que uma moça é bela, estamos nos referindo ao local, porém se dissermos que ela é linda é perante a humanidade.


Sepé tinha carisma! 
Mesmo sem ser chefe superior da sua redução, cargo ocupado por Alejandro MBaruari, morto nos primeiros combates, Sepé conseguia que seus comandados se locomovessem com agilidade, ordem e disposição. Coisa que os outros comandantes não conseguiram e foi decisivo para o fracasso da resistência.

Obs:Cada redução tinha sua autonomia, não existia uma "Capital das Missões"!
Na verdade era muita autonomia, e isso resultou em desunião na resistência.
Houve brigas internas, desconfianças e acusações.
Outro fato que merece reflexão é de que existia uma certa esperança por parte dos guaranys, de que o absurdo Tratado de Madrid fosse derrubado, isso explica em parte a apatia em muitos momentos e o despreparo no massacre em Caiboaté.


Sepé era admirado pelos seus! 
Fato comprovado após sua morte que muitos tentaram aos gritos(pois não tinham mais armas) retroceder os 300 soldados que o cercaram. Depois retornaram a noite para recuperar seu corpo. 
Na morte do corregedor de São Luiz(Francisco Guacú) e o de São Miguel(Alejandro MBaruari), não houve comoção nenhuma. (Isso também nos conta o diário do padre Henis.)


Sepé Tiaraju e os Guaranys dos Sete Povos  
Não lutavam apenas pela terra em si,muito menos por teorias ou padres, lutavam pelo o local sagrado que ela representava.
Lutavam por aquele local e não outro! 
Naquelas esplendorosas estruturas que construiram com suas mãos(que hoje se resumiram a poucas ruínas), estava a garantia de encontrarem um mundo melhor. 
As Reduções era o verdadeiro Santuário! 
Por ela é que entrariam na Terra Sem Males.


*Citei acima que a causa era dos Sete Povos e não dos 30 povos, porque aqui no lado oriental, era um local diferente dos outros povos, local de confronto, ponta de lança.  A companhia de Jesus entregou juridicamente os Sete Povos a Deus dará, para que o Tratado de Madrid fosse cumprido, pensando assim com esse gesto traiçoeiro saciar a fome do lobo. Mal sabiam que eram eles o prato principal..
Mas isso é assunto para a próxima postagem.
Hoje falei de dois, o outro fica para depois...




 







Aqui ao lado foto Sepezinho quando era criança e ainda morava em São Luiz Gonzaga.













Fonte: Diário Padre Tadeu Xavier Henis, jesuíta de origem alemã que era da redução de São Lourenço.

Obs *: Ficou curioso sobre Sumé? 
Clica aqui:https://pt.wikipedia.org/wiki/Sum%C3%A9

Obs **: Nunca ouviu falar dos Caminhos de Peabirú?? 
Clica aqui vivente:http://www.historiabrasileira.com/brasil-pre-colonial/caminho-do-peabiru/